quatro poemas curtos

Quadrinhas

I

João vê o luar da sua janela
Carlão quer casar com moço correto
Marcão toma chá e logo revela
Feliz quem chegar cedo e desperto.

II

Naquele amor único inteiro
dois homens se lambuzam
incompatíveis
perdidamente vingando-se do bárbaro mundo

 
III

Em qualquer nau vou partir sem querer
seja o dia branco seja a chuva branca
em qualquer tempo cruel hei de ter
coração brando emoção mansa

 
Poema sem nome

A manhã branca eu contemplei
quando o vagão reencontrou
a desatenta cidade cansada
um sábado entre tantos quaisquer
quantos instantes olhando incerto
insone perplexo cansado reflexo
a branca manhã contemplando

Casa

No sábado, que mal havia começado, eu estava calmo. Fiquei um tempo deitado enquanto via a luz, cada vez mais intensa, entrar pela janela e trazer aquela vida do lado de fora para cá. O sol muito quente mas o ventinho sempre passando e deixando a sala da televisão bem fresca. Fui tomar um café, pensei que não havia ninguém em casa e sentei num banco meio quebrado no quintal virado para a parte de trás. A grama estava seca e precisava de algum cuidado. Não, não pensei em fazer coisa alguma, era como se ainda estivesse deitado na minha cama, vendo uma luz de começo de outono me dizer: tudo já está seco. Alguém na cozinha ligou o radinho. Vou esperar por aqui mesmo.

Presente

No ônibus, passando por uma das ruas do Centro, vi a porta de um alfaiate e, o terno em exposição ficou gravado em minha memória. Isso foi bem rápido, porque em seguida o farol abriu e todos nós continuamos o rumo. Dias depois, com essa imagem ainda intacta, eu estava no meu quarto, arrumando as minhas duas caixas e encontrei uma cadernetinha. Essa coisinha meio velha e carcomida não era familiar. Deixei em cima da cama. Fui jantar. Na volta decidi ver o que afinal havia nesse objetinho intruso. Não era um caderninho, era um álbum. A primeira foto era de um homem e de uma mulher, as cores desbotadas e as bordas amareladas. Papai e mamãe. Era um presentinho dela para mim. Meu pai estava vestindo um terno, igual ao que vi na porta do alfaiate.

Nessa noite

Com alguma surpresa, no banheiro da casa do velho amigo do coração, percebe que está mais velho. Outra circunstância, pois não mais apetece encher a cara todo o fim de semana, terminando quase sempre na sarjeta. Do delgado sobressalto surge a nova pessoa dentro de si. Tem voz ambígua e ri economicamente. Essa pessoa aspira encontrar os amigos para jantar naquele restaurante tradicional. Troca o esgoto seco pela toalha de linho.

O tempo passou e surge um certo embaraço. Um dado ignorado lhe vem à memória: a conversa trivial com colegas de trabalho, falam dos relacionamentos duradouros e dos recém-findos. Se não estivessem à mesa do refeitório institucional, teriam por acompanhamento um vinho tinto e uma tábua de queijos escolhida a dedo, deixam de lado a cerveja barata sem nenhum acompanhamento. A certeza da passagem traz um temor.

Deitada a cabeça com os primeiros fios brancos despontando, não dorme de imediato e lembra do dia que nem chegou, todas as ânsias de uma vez só. O hoje é mais difícil, os meses voam, o futuro cerca por todos os lados.

Cada vez mais rara a oportunidade dos encontros sem nenhum compromisso. Todos têm uma agenda, e cada vez mais preenchida. Para ver os antigos amigos será preciso marcar com antecedência, como se faz com dentistas e dermatologistas. A constatação desse novo tempo vem na forma de um convite desse antigo amigo do coração, vamos tomar uma sopa aqui em casa. Nada mais de conhaque barato, nada mais de pinga com limão. Sopa, um bom vinho importado, música instrumental requintada, casa impecável, todos bem vestidos.

Nessa ocasião, no banheiro bem organizado, vê-se no espelho, a nova face está mais cansada e tem olheiras. Tudo passa tão rápido pela mente. A sopa está pronta, chamam lá da cozinha. E como a fome é maior que o tempo passado, aceita esse chamado de bom grado.

Dia 7

Em frente à casa não encontra as chaves, maravilha-se com a escada noturna, a porta branca entreaberta, atravessa e respira no silêncio. Demora a acender as luzes, o piso frio é iluminado por algo distante. Latidos ecoam na sala e finalmente, desperta do transe e vai até o interruptor. Peregrina pela casa inteira, descortinando o que lhe parecia mundano, enxergando através de sofás, estantes e espelhos o âmago. Desponta da janela uma outra paisagem e deixa-se levar pela brisa e os minutos demoram a passar. Em nenhum momento ouve o portão de ferro e os passos na escada. Gostaria de ter aquelas mãos em si, a cobrir o corpo como um todo, até o fim dos dias.

Dezembro

Parei de estudar quando fiz 19. Pois é. Foi meu presente naquele ano. Nasci em dezembro e a última aula aconteceu dois dias antes da minha festa. Não costumo ter boa memória. Fui sem a obrigação de precisar estar lá. A recordação da noite mais estrelada possível em São Paulo me vem à cabeça. Seis anos se passaram e a sensação é viva como se fosse ontem.

Passa tempo

Apesar de ser uma vila, ainda não encontrei nenhuma. Esse bairro é um pouco estranho. Algumas ruas curvadas, subidas, becos, avenidas pouco habitadas, escadaria, a praça com um relógio e com um sino, uma alameda cheia de vida, partes vazias de tudo. Passo todos os dias por essas ruas, às cinco e às onze. Hoje, na ida, vi um terreno cimentado e vários gatos sentados. Olhavam para algum lugar e se ignoravam. Também fiquei olhando para esse algum lugar. Mas quase perco a hora. Gostaria de ser um felino.