Dia 7

Em frente à casa não encontra as chaves, maravilha-se com a escada noturna, a porta branca entreaberta, atravessa e respira no silêncio. Demora a acender as luzes, o piso frio é iluminado por algo distante. Latidos ecoam na sala e finalmente, desperta do transe e vai até o interruptor. Peregrina pela casa inteira, descortinando o que lhe parecia mundano, enxergando através de sofás, estantes e espelhos o âmago. Desponta da janela uma outra paisagem e deixa-se levar pela brisa e os minutos demoram a passar. Em nenhum momento ouve o portão de ferro e os passos na escada. Gostaria de ter aquelas mãos em si, a cobrir o corpo como um todo, até o fim dos dias.

Dia 6

Já no último degrau a tarde morre. Atrás da porta mora a triste escuridão. Nada mais desenhado. Respira em silêncio. Chão gelado. Suspira. Sussurra. Latido longínquo. Tosse. Do alto da cabeça observa o sofá e a fraca luz que entra pelas frestas, tudo muda pois ligam a luz do poste, amarela, solar. Caminha na vaguidão, a sala, um corredor, um quarto, um lavabo, por entre os cômodos segue para o coração. O portão range preguiçoso. Pensa ter escutado a maçaneta. Vai até uma janela lateral. Noite cinza. Brisa áspera. Deleite. Aquelas mãos apertam sua cintura e só é possível sentir.

Dia 5

Em pleno fim de tarde encontra-se frente a frente com a porta branca, prestes a abri-la. Na sala quase não se vê mais as figuras pintadas pelo sol. Pouco ouve a respiração. O chão está mais frio que ontem. Sentado no sofá, recosta a cabeça, suspira e depois sorri levianamente. Cantam na rua, latem na rua, batem palmas na rua, mas dentro apenas aguarda sem ter nada no coração. A chegada é anunciada pelos sons metálicos. Um passo após o outro, como ponteiros de relógio, até que a presença torna-se quase física. A maçaneta enferrujada vibra. A noite deve estar bonita, embora o vento sibile.

Dia 4

A porta é branca e a maçaneta está um pouco enferrujada. Dentro da casa, na sala de paredes brancas, o fim de tarde desenha figuras iluminadas e disformes. Deixa fluir a respiração, o corpo dança desajeitado com os pés descalços sentindo o piso frio. Senta-se no sofá e suspira. Sorri. O vendedor de pães passa, os cães latem, continua aguardando sem expectativas. No exato instante da chegada, rangem os portões. Vai chegando cada vez mais perto enquanto a noite já adentrou completamente. Talvez haja algum prazer.

Dia 3

Abre a porta e se depara com a penumbra. Nas paredes, o desenho riscado pela luz débil que atravessa a janela fechada. Respira pouco enquanto sente com os pés o chão. Esse prazer traz uma lembrança remota, as partículas minúsculas que somos capazes de enxergar na contraluz. Um vendedor de pães canta na rua e dois cachorros latem. O portão se abre lá fora e os passos indicam aproximação. No começo da noite espera ter qualquer deleite que seja.

Dia 2

Entra em casa. Na parede branca a luz do sol forma um desenho iluminado, o vidro da janela cintila. O peso da respiração diminui nesse espaço. Caminha descalço de sapatos e das meias pela sala. Algumas coisas dão mais prazer do que outras e, talvez por isso, os detalhes evocam uma súbita saudade. O rangido do portão da rua indica a chegada. Agora há a noite, carregando em si outros deleites.