Casa

No sábado, que mal havia começado, eu estava calmo. Fiquei um tempo deitado enquanto via a luz, cada vez mais intensa, entrar pela janela e trazer aquela vida do lado de fora para cá. O sol muito quente mas o ventinho sempre passando e deixando a sala da televisão bem fresca. Fui tomar um café, pensei que não havia ninguém em casa e sentei num banco meio quebrado no quintal virado para a parte de trás. A grama estava seca e precisava de algum cuidado. Não, não pensei em fazer coisa alguma, era como se ainda estivesse deitado na minha cama, vendo uma luz de começo de outono me dizer: tudo já está seco. Alguém na cozinha ligou o radinho. Vou esperar por aqui mesmo.

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Presente

No ônibus, passando por uma das ruas do Centro, vi a porta de um alfaiate e, o terno em exposição ficou gravado em minha memória. Isso foi bem rápido, porque em seguida o farol abriu e todos nós continuamos o rumo. Dias depois, com essa imagem ainda intacta, eu estava no meu quarto, arrumando as minhas duas caixas e encontrei uma cadernetinha. Essa coisinha meio velha e carcomida não era familiar. Deixei em cima da cama. Fui jantar. Na volta decidi ver o que afinal havia nesse objetinho intruso. Não era um caderninho, era um álbum. A primeira foto era de um homem e de uma mulher, as cores desbotadas e as bordas amareladas. Papai e mamãe. Era um presentinho dela para mim. Meu pai estava vestindo um terno, igual ao que vi na porta do alfaiate.

Dezembro

Parei de estudar quando fiz 19. Pois é. Foi meu presente naquele ano. Nasci em dezembro e a última aula aconteceu dois dias antes da minha festa. Não costumo ter boa memória. Fui sem a obrigação de precisar estar lá. A recordação da noite mais estrelada possível em São Paulo me vem à cabeça. Seis anos se passaram e a sensação é viva como se fosse ontem.

Passa tempo

Apesar de ser uma vila, ainda não encontrei nenhuma. Esse bairro é um pouco estranho. Algumas ruas curvadas, subidas, becos, avenidas pouco habitadas, escadaria, a praça com um relógio e com um sino, uma alameda cheia de vida, partes vazias de tudo. Passo todos os dias por essas ruas, às cinco e às onze. Hoje, na ida, vi um terreno cimentado e vários gatos sentados. Olhavam para algum lugar e se ignoravam. Também fiquei olhando para esse algum lugar. Mas quase perco a hora. Gostaria de ser um felino.

Primeiras palavras

Nunca sei o que dizer. Não tenho certeza sobre o motivo de estar aqui. Mas estou aqui e escrevi alguma coisa qualquer. Falta aquela vontade de andar por aí – e isso é raro -, acabei encontrando outra espécie de entretenimento, enquanto as horas vão passando e não quero mais ouvir, nem ler, as vozes. É claro que a mão, ou melhor, os dedos, vão cada vez mais ficando gelados, até doer de verdade, como se tivesse martelado esses membros nem sempre tão úteis. Há outras coisas para fazer, mas não quero: não instalei umas prateleiras que ainda estão dentro da caixa. Vou esperar um dia mais quente, vou esperar um sábado, vou esperar um sábado quente. Uma hora mais propícia. Aí sim precisarei de um martelo, de força e de uma dose de paciência. Eu preciso das prateleiras, senão não teria comprado, tanta coisa para ser arrumada, mesmo nessa casa sem tanta coisa assim. Pensando bem, o frio parece ter uma relação com acumular. Minha alegria nesses dias, aqueles que passaram, da chuva que não acabava, do sol escondido, do vento bem sutil, era apreciar um pouco dessa vida que desperdiçamos. Fui ao parque em uma quinta pela manhã. Andei pelas alamedas alagadas, fiquei vendo a pouca gente que passava: gosto de pensar para onde vão, enquanto eu, fico ali, de tocaia, parado, curtindo o vento e a chuva, esperando, não indo a lugar algum.