Dia 6

Já no último degrau a tarde morre. Atrás da porta mora a triste escuridão. Nada mais desenhado. Respira em silêncio. Chão gelado. Suspira. Sussurra. Latido longínquo. Tosse. Do alto da cabeça observa o sofá e a fraca luz que entra pelas frestas, tudo muda pois ligam a luz do poste, amarela, solar. Caminha na vaguidão, a sala, um corredor, um quarto, um lavabo, por entre os cômodos segue para o coração. O portão range preguiçoso. Pensa ter escutado a maçaneta. Vai até uma janela lateral. Noite cinza. Brisa áspera. Deleite. Aquelas mãos apertam sua cintura e só é possível sentir.

Dia 5

Em pleno fim de tarde encontra-se frente a frente com a porta branca, prestes a abri-la. Na sala quase não se vê mais as figuras pintadas pelo sol. Pouco ouve a respiração. O chão está mais frio que ontem. Sentado no sofá, recosta a cabeça, suspira e depois sorri levianamente. Cantam na rua, latem na rua, batem palmas na rua, mas dentro apenas aguarda sem ter nada no coração. A chegada é anunciada pelos sons metálicos. Um passo após o outro, como ponteiros de relógio, até que a presença torna-se quase física. A maçaneta enferrujada vibra. A noite deve estar bonita, embora o vento sibile.

Primeiras palavras

Nunca sei o que dizer. Não tenho certeza sobre o motivo de estar aqui. Mas estou aqui e escrevi alguma coisa qualquer. Falta aquela vontade de andar por aí – e isso é raro -, acabei encontrando outra espécie de entretenimento, enquanto as horas vão passando e não quero mais ouvir, nem ler, as vozes. É claro que a mão, ou melhor, os dedos, vão cada vez mais ficando gelados, até doer de verdade, como se tivesse martelado esses membros nem sempre tão úteis. Há outras coisas para fazer, mas não quero: não instalei umas prateleiras que ainda estão dentro da caixa. Vou esperar um dia mais quente, vou esperar um sábado, vou esperar um sábado quente. Uma hora mais propícia. Aí sim precisarei de um martelo, de força e de uma dose de paciência. Eu preciso das prateleiras, senão não teria comprado, tanta coisa para ser arrumada, mesmo nessa casa sem tanta coisa assim. Pensando bem, o frio parece ter uma relação com acumular. Minha alegria nesses dias, aqueles que passaram, da chuva que não acabava, do sol escondido, do vento bem sutil, era apreciar um pouco dessa vida que desperdiçamos. Fui ao parque em uma quinta pela manhã. Andei pelas alamedas alagadas, fiquei vendo a pouca gente que passava: gosto de pensar para onde vão, enquanto eu, fico ali, de tocaia, parado, curtindo o vento e a chuva, esperando, não indo a lugar algum.

Dia 4

A porta é branca e a maçaneta está um pouco enferrujada. Dentro da casa, na sala de paredes brancas, o fim de tarde desenha figuras iluminadas e disformes. Deixa fluir a respiração, o corpo dança desajeitado com os pés descalços sentindo o piso frio. Senta-se no sofá e suspira. Sorri. O vendedor de pães passa, os cães latem, continua aguardando sem expectativas. No exato instante da chegada, rangem os portões. Vai chegando cada vez mais perto enquanto a noite já adentrou completamente. Talvez haja algum prazer.

Dia 3

Abre a porta e se depara com a penumbra. Nas paredes, o desenho riscado pela luz débil que atravessa a janela fechada. Respira pouco enquanto sente com os pés o chão. Esse prazer traz uma lembrança remota, as partículas minúsculas que somos capazes de enxergar na contraluz. Um vendedor de pães canta na rua e dois cachorros latem. O portão se abre lá fora e os passos indicam aproximação. No começo da noite espera ter qualquer deleite que seja.

Dia 2

Entra em casa. Na parede branca a luz do sol forma um desenho iluminado, o vidro da janela cintila. O peso da respiração diminui nesse espaço. Caminha descalço de sapatos e das meias pela sala. Algumas coisas dão mais prazer do que outras e, talvez por isso, os detalhes evocam uma súbita saudade. O rangido do portão da rua indica a chegada. Agora há a noite, carregando em si outros deleites.